“O cancioneiro”

 

(LP –1982 -  Portugal – DIAP 19002)

Regravação do disco  “O Guerrilheiro” de 1974, com melhor qualidade sonora.

Há unicamente a alteração da ordem das faixas 1 e 2 do lado A. Assim a 1 e 2 do disco "O guerrilheiro" são a 2 e 1 respectivamente neste disco.

Lê-se num dos textos insertos no disco:"Este disco é uma nova versão de "O Guerrilheiro" e é o fruto de inúmeras pesquisas efectuadas na Biblioteca da Fundação Gulbenkien, em Paris, durante os anos 1973 e 1974".

Ficha Técnica:

 

Bernard Pierrot

- viola

- alaúde

Henri Agnel

- viola

- percussão

- cistro

Jean Claude Veilhan

- flautas de bisel

- cromornes

- oboé

Jean Louis Charbonnier

- Viola de gamba

John McLean

- flautas de bisel

- cromornes

Marcelo Ardizzone

- Viola de gamba

 

Bernard Pierrot

- Direcção musical

Georges Queyras

- Instrumentos

Moreno Pinto e Jorge Barata

- Vozes e misturas

(versão gravada em setembro de 1982)

 

Capa: Maria Judith Cilia

 

 

 

 

luis cilia

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O conde niño

2.45

Anónimo

O adeus d’ um proscrito

5.30

Anónimo - poesia de J.P.Rebelo de Carvalho

Flor da murta

0.55

Anónimo

A Guerra de Mirundum

2.30

Anónimo

O conde de Alemanha

7.10

Anónimo

D. João da Armada

3.40

Anónimo

Canção do figueiral

4.10

Anónimo

D. Sancho

1.35

Anónimo

O Guerrilheiro

9.25

Anónimo

Para aceder aos textos das canções , de momento, ao clicar em cada título de canção irá para a página respectiva da mesma no disco "O Guerrilheiro".

Sobre este disco pode-se ler no Blog "A nossa Rádio", Dezembro 2007, o seguinte:

 

"Ainda de 1982 deve referir-se o álbum "Cancioneiro", de Luís Cília, um compositor/intérprete absolutamente silenciado na actual rádio portuguesa (ainda mais que Luiz Goes, Adriano Correia de Oliveira ou Teresa Silva Carvalho), embora não seja um nome de somenos importância. Convirá não esquecer que ele foi um dos primeiros a pôr em música, no álbum "Portugal-Angola: Chants de Lutte" (Le Chant du Monde, 1964) e na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" (Moshé-Naim, 1967-1971), grandes poetas portugueses e afro-lusófonos (Camões, Filinto Elísio, Garrett, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Carlos de Oliveira, Rui Namorado, José Gomes Ferreira, José Saramago, Afonso Duarte, António Gedeão, Orlando da Costa, Manuel Alegre, Arquimedes da Silva Santos, Fernando Ilharco Morgado, João Apolinário, Daniel Filipe, Gabriel Mariano, Jonas Negalha, etc.). De salientar ainda a influência que Luís Cília teve no movimento dos chamados "baladeiros", designadamente em Adriano Correia de Oliveira que no álbum "Margem Sul" (Orfeu, 1967) cantou três temas com música sua ("Exílio", "Sou Barco" e "Canção Terceira") e em Manuel Freire que gravou um álbum, "Devolta" (Diapasão/Sassetti, 1978), exclusivamente com músicas da sua autoria. "O Peso da Sombra" (Diapasão/Sassetti, 1980), sobre poesia de Eugénio de Andrade, "Contradições" (Diapasão/Sassetti, 1983) sobre poesia de Armindo Rodrigues (face A), "Sinais de Sena" (Diapasão/Sassetti, 1985) sobre poesia de Jorge de Sena, e "Penumbra" (Transmédia, 1987) sobre poesia de David Mourão-Ferreira são outros trabalhos importantes da sua discografia, que inclui também álbuns de música instrumental composta para bailados como "A Regra do Fogo"(Tejo, 1988) e "Bailados" (Strauss, 1995). Já o álbum "Cancioneiro" (Diapasão/Sassetti, 1982), na verdade uma regravação (das partes vocais) de "O Guerrilheiro" (Orfeu, 1974), o primeiro LP que Luís Cília gravou em Portugal após o seu regresso do exílio, é uma abordagem ao ancestral repertório tradicional português. "O Conde Niño", "O adeus d’um proscrito", "Flor da Murta", "A guerra do Mirandum", "O Conde de Alemanha", "D. João da Armada", "Canção do figueiral", "D. Sancho" e "O guerrilheiro" são os nove temas do alinhamento. Fruto de aturadas pesquisas efectuadas pelo cantor na Biblioteca Gulbenkian de Paris, durante os anos de 1973 e 1974, "O Guerrilheiro"/"Cancioneiro" constitui um dos trabalhos mais notáveis e raros de recuperação do romanceiro tradicional e de canções de antanho (do séc. XIII ao séc. XIX).


Sobre a génese deste disco, é oportuno citar Luís Maio: «Luís Cília, cantor de intervenção durante uma década exilado em Paris, regressou a Portugal dias depois do 25 de Abril. [...] Ao ser confrontado com a nova conjuntura portuguesa, Cília, em vez de aproveitar, decidiu demarcar-se. "Cheguei a 29 de Abril e, perante o sectarismo que se começou a criar, dei uma entrevista em que dizia que considerava o Alfredo Marceneiro um cantor revolucionário. É uma coisa que mantenho, mas que na altura até disse como uma forma de provocação contra aqueles tipos que achavam que o fado era fascista. De resto, um povo que durante 48 anos não tinha tido acesso a um determinado tipo de música e que a seguir ao 25 de Abril apanhou com doses industriais de uma reles música a que chamavam revolucionária onde 'pão' rimava com 'patrão'... Depois havia uma inflação de 'revolucionários'. Este disco foi então a minha reacção, como também o foi ter dado a mim mesmo como meta, durante um ano, não cantar em Lisboa. Porque era em Lisboa que se dava o folclore todo. Daí eu ter arranjado, desde essa altura, alguns inimigos. Resolvi fazer este disco, que era em tudo contrário à corrente. Decidi fazer um disco cultural, embora também tivesse a sua intervenção. [...] Conheci o doutor Coimbra Martins, director da biblioteca da Fundação Gulbenkian em Paris. Ele deu-me todas as facilidades para ir à biblioteca regularmente recolher música antiga e consultar todos os cancioneiros que lá havia." [...] Para gravar o seu disco de 74, Cília optou por voltar a Paris, tendo por única companhia José Niza, enviado pela Orfeu como produtor executivo. A razão era simples: estavam na capital francesa os companheiros musicais de que o cantor português precisava para concretizar o seu projecto. "Eu conhecia o Bernard Pierrot que era um guitarrista clássico, que tinha sido aluno do meu professor de composição, Michel Puig. O Bernard tinha um grupo de música antiga e pedi-lhe para fazer as orquestrações das canções que eu recolhera. Aliás, limitei-me a fazer a recolha e a cantar. Talvez tenha sido o único disco meu em que não assumi a direcção artística. [...] A canção que dá título a este disco ["O Guerrilheiro"] é uma canção alentejana feita na guerrilha do séc. XIX. Depois até a Intersindical pegou nessa música para fazer o seu hino com outra letra." [...] Se "O Guerrilheiro" saiu depois das recolhas e das antologias de Giacometti e Lopes Graça não é menos verdade que foi lançado antes da sua reelaboração por formações como Almanaque, Brigada Victor Jara, GAC, Raízes ou Vai de Roda. Mas em contraste com estes, Luís Cília não era, em 1974, um cantor urbano de regresso às raízes, como a uma fonte purificadora de autenticidade social e estética. Cília era um cantor de baladas com veleidades culturais, que nessa medida se quis fazer acompanhar no mergulho histórico de um grupo de música antiga dirigido pelo académico Bernard Pierrot. Nesta conjunção singular entre o presente e o passado, o seu gesto também poderá ser considerado pioneiro. [...] É também [um trabalho] animado por intuições, ideias e um tipo de ousadia cultural e estética que é a essência da música portuguesa mais criativa de sempre.» (Luís Maio, in "Os Melhores Álbuns da Música Popular Portuguesa", Público/FNAC, 1998)