Caixa de texto: “Contradições”
 
(LP –1983 -  Portugal –Diapasão DIAP  20005)
 Disco parcialmente dedicado à poesia  de Armindo Rodrigues.

Caixa de texto: luis cilia

Caixa de texto: Ficha Técnica:
 
Luis Cilia
- Voz e viola. Música , arranjos e direcção musical. Os temas “A traidora”  a música é de G. Brassens e “Maldita Cocaína” é de Cruz e Sousa.
 
José Eduardo
- Contrabaixo
 
Vitorino Gomes
- Violino
 
António Anjos
- Violino
 
Vasco Broco
- Violino
 
Alexandra Mendes
- Violino
 
António Oliveira e Silva
- Violeta
 
Luiza Vasconcelos
- Violoncelo
 
Pedro Caldeira Cabral
- Guitarra
 
Mário Laginha
- Teclas
 
Artur Moreira
- Clarinete
 
Carlos Martins
- Saxofone tenor
 
Fernando Ribeiro
- Acordeão
 
José salgueiro
- Percussão
 
Participação amigável de:
Fausto, Sérgio Godinho, Alfredo Vieira de Sousa,  Francisco  Fanhais, Vitorino e Pedro Casaes.
 
Gravação:
Estúdios Rádio triunfo de 12 a 20 de Setembro de 1983
 
Técnicos de som:
Moreno Pinto (gravação e misturas), Paulo Junqueiro (gravação)
 
Produção e edição:
Sassetti
 

Capa, fotos e grafismo:
Maria Judith Cilia
 

*
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Caixa de texto:  mais de 45 anos de música

Cantigas

6.38

Armindo Rodrigues

Arte Poética

6.32

Elegia  por Antecipação à Minha Morte Tranquila

6.52

Inventário

4.22

Luís Cília

A traidora

2.21

George Brassens

Maldita cocaína

3.09

Almeida Amaral e Cruz e Sousa

A Máfia lusitana

4.27

Luís Cília

Hino do Sacanavenense

5.50

Luís Cília

*

«Luís Cília permanece como um dos mais representativos cantores de um canto de intervenção cujo vigor e acutilância não tem seguido a corrente de quantos se têm entretido com rodriguinhos estéreis e conformistas. Luís Cília teima (e ainda bem!) em prosseguir na senda do dito mordaz, do humor demolidor de compadrios e situações (soluções?) de compromisso, que tem vindo a instalar-se de modo crescente entre os mais responsáveis criadores da nova música portuguesa: a competição crescente entre si e uma certa perda de solidariedade activa, que tem constituído o principal factor de não construção de alternativas válidas aos grandes meios de comunicação social em termos de divulgação regular do trabalho realizado. Cília reafirma a necessidade de tudo ser posto em causa, numa altura em que, forçoso é reconhecê-lo, se corre o risco de se andar um para cada lado, num dispersar de esforços que deixa o movimento ao sabor de um acaso que o não é, pois é por demais sabido como o mundo do espectáculo em Portugal é feito pelos detentores dos meios de produção e difusão. "Contradições" insere-se na linha de "Marginal" (1981), apresentando cantigas que constituem uma constante na obra do seu autor: musicalização da poesia de qualidade e composição de temas nos quais o humor crítico e irreverente serve a desmontagem/análise de factos e situações da nossa vida de pequenas misérias. "Cantigas", "Arte Poética" e "Elegia por Antecipação à Minha Morte Tranquila" constituem o encontro com a poesia de Armindo Rodrigues e a música de Luís Cília, uma música feita de grandes espaços e de expressivos ambientes. A relação poesia-música afigura-se-nos perfeita e francamente inspirada, resultando num todo harmonioso invulgar, conferindo a "Contradições" a dimensão das coisas pensadas com todo o rigor criativo. Se alguém ainda tivesse dúvidas da excelência musical de Cília por certo as perderia com as três composições apontadas; e se porventura ainda se tiver coragem para recusar Cília invocando falsas questões vocais, pensamos que basta ouvir com toda a atenção "Cantigas" ou "Arte Poética" para assistir ao desmoronamento absoluto de tais argumentos. No lado segundo de "Contradições", o encontro com a composição que através do humor desmonta toda uma série de situações anómalas constitui uma lufada de crítica fresca e fortemente interventiva: "Inventário" (ou de como se pode e deve equacionar o panorama da cantiga com todas as suas bizarrias promocionais), "A Traidora" (um tema de Georges Brassens adaptado por Cília e está tudo dito), "Maldita Cocaína" (um recriar muito oportuno de uma canção de Almeida Amaral/Cruz e Sousa, da revista "Charivari", 1929), "A Máfia Lusitana" (palavras para quê?) e "Hino do Sacanavenense" (isto de andarmos sempre a converter as derrotas em vitórias tem que se lhe diga). São cantigas que não hesitamos em considerar dignas da já velha censura radiofónica que revela especial predilecção pelo trabalho incómodo de Cília, mas que valem como testemunhos ímpares de uma atitude coerente e revitalizadora (porque intervém sem concessões).
 Destaque para a participação de Fausto, Sérgio Godinho, Alfredo Vieira de Sousa, Francisco Fanhais, Vitorino e Pedro Casaes no "Hino Do Sacanavenense" e para a colaboração instrumental de José Eduardo (contrabaixo), Vitorino Gomes (violino), António Anjos (violino), Vasco Broco (violino), Alexandra Mendes (violino), António Oliveira e Silva (violeta), Luiza Vasconcelos (violoncelo), Pedro Caldeira Cabral (guitarra), Mário Laginha (teclas), Artur Moreira (clarinete), Carlos Martins (saxofones tenor), Fernando Ribeiro (acordeão) e José Salgueiro (percussão).
 "Contradições" traz a marca inconfundível de um Cília que permanece igual a si próprio em todos os aspectos, assumindo a sua evolução sem elementos estranhos à sua obra, o que inevitavelmente lhe continuará a valer os mimos habituais dos agentes oficiais da miopia cultural deste pais. Para mal deles mesmos. Porque apesar de ter havido notícia de um louvor da música que Luis Cília compôs para o filme de Monique Rutler, "Jogo de Mão", não seremos com certeza profetas de coisa nenhuma se afirmarmos que com "Contradições" ou sem "Contradições" algumas "contradições" persistirão. Para nós, agora e sempre, a certeza de que Cília continua a ser "homem de fé segura, de um momento e de um lugar". O que garante a importância dos seus trabalhos.

(Mário Correia, in "Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida", Centelha/Mundo da Canção, 1984).